Estória sem nome
“Havia dias em que ela olhava pro sol e agradecia; saia e sorria para estranhos na rua, tinha vontade de ajudar velhinhas a atravessarem o sinal e alimentar cachorrinhos abandonados. Outros dias, porém, ela tinha o peso do mundo no coração, sentia como se a angústia a corroesse, e não entendia o porquê. Tinha vontade de chorar, de gritar, de pedir pro maquinista dessa locomotiva louca chamada vida parar e deixar ela descer. Muito difícil entender tanta disparidade dentro da mesma pessoa, não?! Seria um transtorno bipolar?! Um desvio psicológico?! Não. Depois de algum tempo ela percebeu que era perfeitamente normal; tudo o que sentia nada mais era do que reflexo da sua realidade: ela era um ser humano.Isso mesmo. Ela era descendente dos macacos, ou de Adão e Eva; bípede, racional, e talvez por essa racionalidade tinha extrema dificuldade em lidar com os tropeços e as surpresas da vida. Tinha medo de errar. Medo de falar. Medo de sentir.
Até que um dia ela resolveu se testar; seria a cobaia de suas próprias teorias; a menina que agia com a razão se deixou levar pelo coração, pela primeira vez. E gostou. Porque mesmo tendo um resultado diferente do desejado, as recompensas que a verdade trouxe foram melhores do que qualquer ilusão que ela criara sobre aquela situação.
Percebeu que o sol agora brilhava forte todos os dias, e que a água da chuva fazia um ruído todo especial ao bater no chão; se deu conta que a paz que tanto se busca no mundo, no trabalho, nos livros, estava dentro dela mesma. Percebeu que existem dias bons e ruins, que ninguém é perfeito e que amor e desejo são coisas completamente diferentes. Descobriu que a felicidade não deve ser esperada e sim conquistada; que o medo do amanhã não te deixa viver o hoje. E que fórmulas mágicas não curam as dores da alma.
Enfim, depois de perceber que dentro dela poderia habitar um oceano de sentimentos e desejos, frustrações e arrependimentos, medos e conquistas, ela resolveu recomeçar. Recomeçaria hoje, tentando conquistar seus objetivos. E tentaria de novo, e mais uma vez, e tentaria até que suas forças fossem embora. Porque ela era um ser humano. E isso é que é SER humano.”

1 Comments:
que lindo! que maravilhoso! tentemos!
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