Memórias de Biblioteca
Ontem eu liguei pra Chaim. Ela trabalhou comigo no acervo da biblioteca o ano passado todo, deu pra lembrar de muita coisa. Falemos do passado então. Teve dias de tirar o pó de todos os livros e dias de colar etiquetas em cada um, e de blasfemar de quem colava tudo torto, ir buscar jornal na portaria, dias de assustar o povo do processo técnico com o crânio de dinossauro e outras coisas do museu, ficar presa no banheiro masculino, levar castigo e ter que lavar cadeira com o Jr e conversar com o pedreiro bêbado, teve um dia que eu chorei de mentira e um besta acreditou, teve o dia que a Chaim colocou uma luva no pé. Ficar batendo papo em forma de sussurros pro tempo passar e não ter que trabalhar naquilo. Lá no saguão é bonito, as escadarias também, mais isso nem importa, porque eu só ligo pras gentes que eu gostava lá dentro. E tinha as tias da Pedagogia, desesperadas com TCC, que iam tirar xérox de imensas quantidades de páginas, tinha os velhotes, o Antonio Camilo que era tão bonzinho e o José Custódio que era revoltoso e me chamava de “marcianita” porque eu não deixava ele levar 10 livros de uma vez só. Tinha o Silvio que era puxa-saco da chefe, o Tércio e o Tiago que me confundiam de tão parecidos e tinha um tiozão que falava caipirescamente. Das 20:00 às 22:00 era o maior movimento, recibo de retirada, recibo de devolução, de renovação, “nome, curso e série”, bagunça de fixas, Maurinda louca, papel da impressora que acabava, gago que não falava o RA direito. Das 18:30 até as 20:00 eram dezenas de recibos de atraso e multas pra preencher pra Chaim entregar, ou o Léo que depois foi embora. Chegou o João Antonio Jr. pra trabalhar na recepção e substituir o Léo, o menino se assustou comigo deitada na escada rindo até quase morrer, depois teve que ir falar comigo pra aprender a lidar com o acervo e todo o resto, com o tempo ele largava a recepção e ia conversar e dar risada e me fazer falar alto pra Maurinda falar “xiiiu” com cara feia, depois ele namorava a Laely escondido por lá. Às 17:30 iam eu, a Nice e o Jr jantar e falar mal de tudo, brigar, xingar e fazer a nutricionista e as cozinheiras rirem escondidas. A Nice tomava leite com chocolate todo dia. Antes do jantar ainda tinha biblioteca, tinha a Ana Paula da sessão infantil pra conversar, o Gui no laboratório pra visitar, leitura técnica, guardar os livros jogados nas mesas. O bibliotecário prof. Moraes era infeliz, não pelo nome dele que era Hermenérico. Depois aprendeu a ser feliz, virou Tio ou Professor, e começou a rir da gente e me emprestar literatura underground, a Maurinda também ria e batia nas minhas costas, a Gleidina putona não entendia nada. Em 2005 a biblioteca foi massa, todo o mundo diz. As gentes iam mais lá, os nerds de SI com cantadinhas toscas, os regulares desocupados, os grupos de estudo e de Magic, o mocinho que levava chiclete e bolacha pra mim, o Banana pra ler todas as revistas todo dia. E eu conversava, conversava, conversava com a Nice e mexia nos clips coloridos, jogava os pés em cima do balcão, perdia as canetas, ficava no Msn ilegalmente, cadastrava periódicos inúteis, atendia telefone. Ouvi cada coisa lá: “vc usa peruca?”, “baixinha vc”, “qué comprá um cuturno?”, “seu tio é um pão”, “Jesus sabe que vc ta enganada e eu devolvi o livro”, “ce gosta de Iron Maiden?”, “me abraça?”. Meu nome mudou pra Sophia, que era o nome do programa dos pcs de consulta. Tanta, tanta coisa em tão pouco tempo, ainda dava pra ler Superinteressante, desenhar, estudar pra prova. Credo, quantas lembranças, eu queria pedir pro Papai Noel, Coelho da Páscoa, gnomo verde, hiena viada, qualquer um, pra ter 1 semana dessas de volta, 1 dia que for. Mais não dá. Tá tudo no mesmo lugar, prédios, tetos, paredes, o sistema anti-furto filho da puta, mais as pessoas se foram, umas ficaram, eu fui, uma morreu, e não dá mais pra ter tudo aquilo ao mesmo tempo. E eu era néscia de pensar que bibliotecário é nerd e cheira mofo. Eu aprendi a falar “anta patagônica” e “vadia(o)”. Tchau Chaim, a conta vai vir alta.Que ultra-banal.

3 Comments:
Que ultra banal. Que ultra textão!
"ce gosta de iron maiden?"
haahah
tempos bons não voltam.... mas são um acalento num momento de tristeza... e um impulso pra fazer o possível pra ter sempre tempos melhores
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